Impressões - Peça Teatral - Justine, de Marques de Sade
Enviado em 14 de Junho de 2009
Publicado por Exploranter | Enviar por e-mail
| Hits para esta publicação: 218
Peça: Justine
Onde: Espaço dos Satyros – www.satyros.com.br
Atores: 20
Enredo: Baseado no livro ”Justine, os sofrimentos da virtude” de Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade, conta a história de duas irmãs, que após serem abandonadas pelo pai e ficarem órfãs de mãe, tocam suas vidas. Juliette, sem pudores ou restrições morais, inicia pela prostituição e constrói uma vida repleta de dinheiro e realizações. Justine, pudica e amarrada por convenções acerca do certo, justo e moral, passa uma vida desgraçada.
Primeiras impressões: Dado o sinal, entramos. Descemos um lance e paramos em frente a outra escada. Sentei na primeira fila, no canto direito. Talvez mais para o meio fosse melhor, mas já estava ocupado. O ambiente parece um subsolo reaproveitado. Nem porão parece. Fico fazendo contas: será que estou embaixo da Praça Roosevelt? Ainda não há movimento de atores ou luzes, tampouco de música. Eu não sou o único a escolher lugar para sentar. Há pessoas que sentam em diversos lugares até decidir pelo que julgam ser o melhor lugar, disponível, isto é. O palco, pelo que parece, fica no mesmo nível que a primeira fileira. Há um piano numa entrada na parede do lado direito. Se houver cenas ali, talvez eu não possa ver direito. Neste mesmo nível, do lado esquerdo, há 3 entradas, maiores que portas, e logo acima, um espaço como se fosse um terraço, num segundo andar. Ao fundo, o que parece um palco, se não fosse tão alto, estreito e longe de nós.
Atrás de nós, um espaço que parece ser para quem vai orquestrar som e luzes.
Narrativa: Logo de cara percebe-se que a peça será interpretada e narrada. Há narrativas de fatos e há narrativas de pensamentos. Pensamentos narrados pelo próprio personagem e fatos narrados por personagens aleatórios. A história fica muito bem contada desta forma.
Iluminação: Cortinas, sombras, escuridão, tudo muito bem montado.
As primeiras cenas de Juliette vendendo sua virgindade foram cenas feitas atrás de uma cortina vermelha. Uma perfeita introdução ao universo de Sade, para que as cenas de nudez não acontecessem de forma gratuita. Houve um crescendo.
Outra solução muito curiosa foi a encenação do quarto de Justine, no palco do fundo. Um ator segurava um retroprojetor, daqueles de escola. A folha de transparência projetava na parede do fundo a cena, com a cama, a porta, rachaduras na parede e outros elementos. O ator segurando o retroprojetor se mexia e produziu até o efeito de um zoom numa das cenas do quarto.
Em outros momentos tudo ficava escuro, com um único foco de luz no ator ou atriz narrando, como que para nos remeter a um pensamento e esmaecer o impacto das cenas anteriores, normalmente com 20 pessoas nuas em palco.
Cadeiras de roda: Não as cadeiras de roda como as conhecemos, mas houve um elemento interessante que eram personagens femininos, mais velhos, apareciam sobre estrados com roldanas e eram empurradas de um lado para o outro da cena. O estrado não era visível. Estava escondido sob o vestido armado de época. Interessante o elemento, embora eu não tenha identificado totalmente a razão de ser dele. Seria para representar senhoras da corte que eram dependentes em tudo de suas criadas?
Nudez: Paus, peitos e pelos de todas as formas, cores e tamanhos. Não agressivo, natural, à lá Marques de Sade. A peça teria acontecido sem nudez? Sim, mas aí não seria Sade. A nudez foi mais tratada como condição do que como ato, mesmo porque para nudez como ato, estaríamos a uma esquina de distância. Ponto alto das cenas de nudez foi o estupro de virgem Justine pelos padres qual a abrigaram, bem Marques de Sade, um ateu pioneiro que abertamente afrontava a decrépita igreja católica. Numa semana em que temperaturas foram abaixo de zero no Estado do Rio (-2 em Friburgo), foram cenas heróicas, que falam muito sobre o esforço e dedicação necessários ao ofício do ator.
The performing arts: A atriz que representou Justine estava maravilhosa, como atriz, entendam-me. Levou-nos para dentro de sua história, de seu sofrimento, de suas convicções morais. Eu embarquei completamente na personagem e fiz todas as cenas de dentro de sua perspectiva. A ela não foi dada a opção de caricaturizar. Ela foi densa, real, sofrida, esperançosa e ingênua. A outros atores foi dada a opção da atuação escrachada, que trouxe uma leveza ao ambiente, que trouxe risadas, mesmo não sendo uma comédia. Foi encontrado um belo equilíbrio entre diversas formas de atuação. Diferente de um prato da cozinha francesa, que por ode à perfeição contém apenas um ingrediente, neste caso a mistura de sabores foi o tempero perfeito da receita. Entre 20 atores, difícil destacar este ou aquele, mas o conjunto estava harmônico e não percebi nenhum ator destoando do todo.
Meus pensamentos secretos: em tom de confissão, pena que estou escrevendo 4 dias depois, depois de uma maratona de peças teatrais e filmes. Gostaria de ter escrito e descrito minhas percepções sobre uma peça destas ainda quente, sob o signo da emoção. Mas não há problema, é uma trilogia e irei às outras duas: “A filosofia na alcova” e “120 dias de Sodoma” – e escreverei logo que voltar.
Posted via email from exploranter’s posterous
By Flavio Melo - Exploranter
Deixe uma resposta.
Você deve estar conectado para publicar um comentário.